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General: ATRÁS DE UMA BORBOLETA AZUL
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Respuesta  Mensaje 1 de 4 en el tema 
De: Luiza  (Mensaje original) Enviado: 12/11/2010 13:59

  

 
 

 

 


Florestas não são apenas estatísticas. Nem apenas objeto de negociações,
de disputa política, de teses, de ambições, de pranto. Antes de mais 
nada, são florestas, um sistema de vida complexo e criativo. Têm 
cultura, espiritualidade, economia, infra-estrutura, povos, leis, 
ciência e tecnologia. E uma identidade tão forte que permanece como uma 
espécie de radar impregnado nas percepções, no olhar, nos sentimentos, 
por mais longe que se vá, por mais que se aprenda, conheça e admire as 
coisas do resto do mundo. 

Vivi no seringal Bagaço, no Acre, até os 16 anos. Tenho pela floresta 
muito respeito e cuidado. Quem conhece a mata, não entra de peito 
aberto, mas com muita sutileza. Ali estão o suprimento, a proteção e os 
perigos. E também o mistério, algo não completamente revelado. Vidas e 
formas quase imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó 
diferente, uma raiz, uma textura, uma cor, um cheiro. A descoberta dos 
sons. Até o vento na copa das árvores compõe melodias únicas, de acordo 
com a resistência oferecida pela castanheira, a samaúma, o açaizeiro. 



Na minha infncia, o som que achava mais bonito era o do período da 
florada das castanheiras. A castanheira é polinizada por uma abelha 
enorme, o mangangá. Imaginem centenas de mangangás entrando nas flores 
para tirar o néctar! Como a flor é côncava, na hora de sair têm que 
fazer uma força extraordinária nas asas, num vôo de frente pra trás, que
provoca um barulho de máquina potente e rouca. Uma de minhas primeiras 
lembranças do mundo é do barulho dos mangangás na copa da castanheira ao
lado do terreiro da nossa casa. 



Embora para muitas pessoas a floresta possa parecer homogênea, sempre a 
vi como espaço de diversidade. Gostava de prestar atenção em pequenas 
coisas, como formigas levando folhas para o buraco. O caminho das 
formigas era bem limpinho, parecia varrido. A estrada de seringa era 
cheia de folhas, tocos, raízes, de espera-aí, um espinho de rama que 
arranha a perna quando a gente passa. E eu imaginava como seria bom ter 
uma estrada de seringa limpa como o caminho das formigas! Outra formiga,
a tucandeira, tem uma ferroada tão dolorosa que não dá nem para 
explicar. Mas havia também uma razão mítica pra temê-la. Meu tio Pedro 
Mendes, que durante muito tempo conviveu com os índios do Alto Madeira, 
dizia que as tucandeiras viravam cipó de ambé. Se morresse uma na copa 
da árvore, o corpo virava a planta e as pernas viravam os cipós. Quando 
se era mordido de tucandeira, a primeira coisa a fazer era procurar um 
cipó de ambé, cortar e beber a água porque ela era o antídoto. Não sei 
se era mesmo, mas ajudava a aliviar a dor. 



Meu tio ensinava coisas em que a gente acreditava profundamente. Ele 
dizia que se a gente se perdesse e visse uma borboleta azul, era só 
segui-la que ela nos levaria para a clareira mais próxima e de lá 
acharíamos o caminho de casa. Essa borboleta é linda, enorme, quase do 
tamanho da mão. Nunca vi um azul igual. Que, aliás, é marrom. Os 
pesquisadores do INPA descobriram que ela tem uma engenharia de 
disposição das escamas das asas que faz com que, na incidência de luz, 
se tornem azuis. Depois entendi porque nos levava para casa. Porque 
gosta de pousar em frutas como banana e mamão maduros, já bicadas pelo 
passarinho pipira. Quando sente fome, procura a primeira clareira onde 
haja um roçado de frutas. E lá perto, certamente haverá uma casa. São 
coisas que parecem crendice, mas há conhecimento científico associado, 
obtido pelo mesmo princípio do método acadêmico: observação sistemática 
dos fenômenos. 



Antes de existir Ecologia como ramo do conhecimento ou ambientalismo 
como movimento, o sistema da floresta já tinha suas normas, o seu 
"Ibama" natural, sua sustentabilidade, por meio de um código mítico que 
funcionava como legislação de proteção da mata e das formas de vida que a
habitavam. Não se podia pescar mais do que o necessário, porque a mãe 
d´água afundaria a canoa. Não se podia caçar demais porque o caboclinho 
do mato daria uma surra. Não podia matar animal prenhe porque a pessoa 
ficaria panema, ou seja, sem sorte. E para tirar o azar seria preciso um
ritual tão complicado que era preferível deixar o bicho em paz. As 
práticas de acesso aos recursos da floresta, mediadas por esse código 
mítico, acabavam levando a um alto grau de equilíbrio. Só se caçava 
quando acabasse a carne seca pendurada no fumeiro do fogão. Logo, se não
se podia caçar em excesso, não havia carne para venda, só para o 
próprio consumo. Contrariada essa norma, o caboclinho do mato castigaria
o infrator com uma surra de cipó de fogo com nó na ponta. A pessoa 
apanhava mas não conseguia se defender porque não via a entidade. Ficava
toda lanhada, com febre. Até o cachorro, se acuava uma caça 
desnecessária, começava a pular e ganir de dor. Era o caboclinho 
disciplinando o animal. 



Os relatos eram inúmeros e me deixavam com muito medo de andar pelo 
mato. Superava-o, em primeiro lugar, cumprindo à risca as leis míticas. 
Além disso, desde criança tenho uma fé imensa e achava que, sendo justa 
com a natureza, Deus me protegeria. E mesmo com todo esse medo, minhas 
irmãs e eu gostávamos de andar pela floresta porque lá a gente se 
divertia muito. Por exemplo, fazendo balanço de um cipó muito 
resistente, em árvores que chegavam a trinta metros de altura. Pescar 
nos igarapés, colher bacuri, abiu, taperebá, ingá, tucumã, cajá, era 
muito bom. 



Era um mundo de sabedoria tradicional, de organização social e cultural 
inseparável da existência da floresta. Até que um dia chegaram as 
motoserras e tratores e desconstituiram os códigos míticos, criando a 
necessidade crescente do aparato legal que, por não estar dentro do 
homem, precisa de instituições e mecanismos para implementá-lo. Não foi à
toa que a primeira grande operação de combate a desmatamento feita pela
Polícia Federal, envolvendo 480 agentes, no estado de Mato Grosso, foi 
batizada de Operação Curupira. 



Se abríssemos hoje nossa sensibilidade para os valores da floresta, 
talvez se tornasse mais fácil redefinir o que entendemos por qualidade 
de vida. Quem sabe, pode estar faltando uma enorme borboleta azul para 
nos conduzir para casa, onde os frutos de nossas decisões sempre nos 
aguardam em mesa farta.



MARINA SILVA






 

 

 





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Respuesta  Mensaje 2 de 4 en el tema 
De: ♥Cherry♥ Enviado: 12/11/2010 14:07

Respuesta  Mensaje 3 de 4 en el tema 
De: MARILU9268 Enviado: 12/11/2010 14:28
HOLA
GRACIAS POR TRAERNOS TUS MENSAJES CADA DIA
ES UN GUSTO QUE ESTES AQUI
QUE TENGAS UN FELIZ VIERNES

marilu1TELEO.jpg picture by MARILU2463_PHOTO

Respuesta  Mensaje 4 de 4 en el tema 
De: ♥♥♥♥LEONCITA♥♥♥♥ Enviado: 14/11/2010 08:35
http://81p30w.blu.livefilestore.com/y1pQg3Skj0l0ttaNVvOvF-gIW7dYaVpzVYiEDtx16D53PwoH6vc5FlzQTEjqp7manlaLvQiaVyt9ddFKKo0GUsyYjSdGy3gTtSB/LeoncitaMERCY.jpg?psid=1


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