Um dia você acorda e sente
que já não é mais o mesmo,
que o cheiro da vida mudou,
que as antigas motivações
não lhe servem mais,
como roupas antigas e apertadas,
desbotadas pelo uso excessivo.
Um dia você acorda e percebe
que a luz está diferente,
que os sons da vizinhança
não lhe dizem mais respeito,
que o som do seu coração está cansado
das mesmas batidas na terra,
seu coração está pedindo é para voar .
Percebe que antigos
sonhos estão voltando,
mas não têm lugar
naquele pouco espaço
que lhes foi destinado,
como uma revoada de passarinhos
a fazer um barulho
incrível no seu peito,
batendo asas e soltando penas.
Você acorda e se dá conta do que não fez,
de onde não chegou,
dos arranjos e das coisas e gentes
que usou para seu gozo,
e no entanto,
não conseguiu ser
íntegro consigo mesmo.
Um dia acorda e percebe: decepcionado,
quis crer em tantas crenças e doutrinas,
se esforçou para agradar
a gregos e troianos,
disse "sim" quando queria dizer "não",
e deixou de falar "não" tantas vezes
que já não sabia mais
qual era o seu querer,
quais eram os seus sabores
preferidos e a direção que escolheu caminhar.
Da mesma forma,
acorda e percebe
que estava com saudade da sua música,
seus livros, seus segredos e seu ócio.
Acorda e olha para o teto,
vê possibilidades acima do teto; sorri,
simpatizando-se com
a aranha tecendo teimosa
a despeito das estocadas
diárias da vassoura.
Sem se render, ela recomeça toda noite,
e agora você se dá conta
que existe a coragem de recomeçar.
Um dia você acorda e lembra que riu,
comeu e sentou a mesa com gente
que de fato nunca se importou,
e você oferecendo seu melhor sorriso
em troca de aceitação.
Que bobagem.
Lembra
que não protestou diante de absurdos,
recolhendo-se à boa educação de sempre.
Lembra que deu o relógio para
a pessoa errada,
e deixou de abraçar
por puro preconceito,
e que não tentou mais uma vez.
Um dia você acorda cansado de dizer
que está cansado de viver,
e decide que vai correr o risco
de recapitular suas teologias e filosofias.
Um dia. Um dia você acorda.
Fonte do texto: Pavablog
Autora: Helena Beatriz Paccitti