Sucedeu em 2007, mas só agora estourou a polémica. Um vídeo feito em Portugal pela actriz brasileira Maitê Proença está a ferir susceptibilidades por causa do tom adoptado. Ontem, terça-feira, nasceu uma petição online exigindo um pedido de desculpas.
Nas imagens em causa, Maitê Proença apelida Sintra, Património da Humanidade, de "vilazinha", confunde o rio Tejo com o mar, passa um atestado de incompetência a técnicos de informática e ao serviço prestado por uma unidade hoteleira de luxo, afirma que Salazar encabeçou um regime ditatorial durante cerca de 20 anos, satiriza o estilo manuelino do Mosteiro dos Jerónimos, brinca com figuras incontornáveis da história portuguesa, de Vasco da Gama a Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa, além de cuspir na fonte daquele monumento nacional.
"Não falei mal de Portugal", defende-se, no entanto, a actriz, mas o vídeo já motivou um abaixo-assinado na net. "Não falei mal de Portugal, amo Portugal, os portugueses, tenho amigos e visito o país sempre que dá", disse Maitê Proença ao JN. "Meus livros são publicados na terrinha e vendem muito bem", acrescentou. Na página do Twitter também deixou a mensagem: "Que chato o pessoal que não sabe lidar bem com o humor".
Ora, uma vez o rastilho aceso, a mobilização dos internautas portugueses não se fez esperar. Para lá de um abaixo-assinado disponível online que exige um pedido de desculpas, paradigmático de como o assunto tem mexido com idiossincrasias patrióticas, é a chuva de comentários que se podem observar na rede social Facebook. Ali também já foi lançado o repto no sentido da subscrição de uma causa subordinada ao nome "Portugueses 'cospem' na Maitê Proença" com propósito análogo: o da redenção pública. A adesão às petições foi exponencial ao longo do dia de ontem e promete engordar. Conotados pela brasileira como "esquisitos", os portugueses foram ainda alvo de chacota no formato "Saia justa" da TV Globo, no qual o vídeo foi exibido em 2007, pelas restantes "tertulianas" que o compõem, as quais soltaram estridentes gargalhadas em função do vídeo em apreço.
Não obstante a grande maioria das reacções pulverizadas no universo Web repudiarem a conduta da actriz, há uma facção, ainda que reduzida, que apenas considera emanar do filme uma tentativa de humor frustrada.
O vilipêndio dos símbolos soberanos de que é acusada constitui-se enquanto a acção decifrada como mais gravosa, até porque Maitê não deixa se der uma embaixatriz da cultura brasileira, influenciando os seus concidadãos. Pese embora as tentativas de contacto encetadas para a Embaixada do Brasil em Portugal, não foi possível obter qualquer depoimento.
Durante cerca de dois anos o vídeo que por cá gravou a actriz numa visita não suscitou celeuma. Foi a sua saída da gaveta através do portal YouTube que lhe veio dar nova vida. Até aqui muito acarinhada pelos portugueses por causa da sua participação em vários produtos televisivos como "Dona Beija", "Torre de Babel" ou recentemente "Caminho das Índias", Maitê poderá agora ver ameaçado o seu estatuto de actriz conceituada.
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