A forma cada vez mais fragmentária e telegráfica como nos comunicamos através dos dispositivos electrónicos que mudaram a nossa relação com os outros e com o mundo parece confirmá-lo” O século passado foi, de forma inequívoca, o século de todas as multiplicações, acelerações e dispersões.
Desaguadouro das grandes revoluções e transformações intelectuais, políticas, sociais, económicas e culturais que atravessaram sobretudo os séculos XVIII e XIX, o século XX define-se como uma espécie de vertigem onde categorias, como o tempo e o espaço, até aí consideradas universais e absolutas, deixaram de sê-lo.
Inúmeros fenómenos como o triunfo das tecnologias de comunicação e de informação, as duas Grandes Guerras, a progressiva emancipação dos povos do mundo inteiro, a produção e o consumismo desenfreados, a ida do homem à Lua, entre outros, inscreviam-se numa sucessão e numa dimensão até aí insuspeitas, provocando uma perplexidade generalizada e sem limites.
Em contraponto ao turbilhão tecnológico que ia ocorrendo, com consequências profundas no imaginário e nos comportamentos das pessoas e das diferentes sociedades, foram surgindo percepções que procuravam interpretar, quando não mesmo antecipar, as configurações e as tendências que o mundo ia experimentando.
É assim que algumas das vozes mais desassombradas do Ocidente, onde as transformações de vulto tinham efectivamente lugar, foram debitando formulações desafiadoras e instigantes, muitas vezes cépticas, acerca do que ia acontecendo e, sobretudo, sobre os destinos da própria humanidade.
Denis de Rougemont (1906-1985) foi uma dessas vozes. Pensador, escritor e ecologista suíço cuja vida e percurso intelectual atravessariam quase todo o século, chegaria à conclusão que o século XX se tinha transformado num pesadelo verbal, com pessoas falando mais do que nunca, com as palavras perdendo as suas conexões e conduzindo-nos para lugar nenhum. Numa obra sugestivamente intitulada A Parte do Diabo (1944), ele concluiria que a linguagem tinha caído na insignificância devido ao facto de que quanto mais falamos, cada vez menos nos compreendemos uns aos outros, numa atordoante manifestação de inflação verbal e de prostituição de linguagem. Um dos remédios para combater tal mal seria, segundo o autor, a instituição em cada país de um Ministério do Significado das Palavras.
Se o século XX concorreu para tão amargo e tão cáustico entendimento, o que se assiste no presente, em que o novo século vai ainda no seu início, apenas serve para tornar mais inquietante o quadro desenhado por Rougemont. Para isso tem contribuído, entre outros factores, a crescente e disseminada perda do valor e da aura da palavra.
A forma cada vez mais fragmentária e telegráfica como nos comunicamos através dos dispositivos electrónicos que mudaram a nossa relação com os outros e com o mundo parece confirmá-lo. Assim como o desrespeito gritante pelas regras mínimas da língua por muitos que se dizem e ganham a vida como comunicadores profissionais, pelo matraquear interminável e enfadonho de palavras por quem deveria ser mais criativo e original, pelo quase total desconhecimento do sentido das palavras usadas na comunicação de todos os dias, pelos discursos repetitivos e manipuladores, pela banalização de vocábulos e expressões que deveríamos utilizar com propriedade e decoro, ou, então, pela confrangedora mutilação das palavras.
Se a tudo isso associarmos os aspectos quase sórdidos da nossa relação com o audiovisual e com a imagem, em geral, bem como com a racionalidade tecnológica muitas vezes assente numa mecânica e monocórdica rigidez terminológica, a paisagem das linguagens não poderia ser mais desalentadora.
Sintomaticamente, uma das mais mórbidas e paradoxais consequências da planetarização do mundo é que muito mais rápida e massivamente assimilamos e cultivamos os vícios do outros do que as virtudes que os distinguem. Tal é o caso que, vezes sem conta, aquilo que lá fora já está reconhecido como sinal indesmentível de decadência, não hesitamos nós em adoptar como modelo e como factor de promoção social, sem qualquer filtro crítico ou criativo. A degradação da linguagem, por significar a degradação da comunicação entre os homens, representa sobretudo a deterioração de um sentido de humanidade, enquanto essência e enquanto existência.
Sem termos que necessariamente recorrer à extravagante solução proposta pelo autor suíço acima referido, que é o da criação de uma instituição que regesse e controlasse o sentido das palavras, existem, pelo menos, duas fontes que asseguram, no meu entender, a vitalidade criativa e significativa da linguagem.
A primeira é a própria língua. Olhando, por exemplo, para as muitas línguas originárias e faladas neste país, mesmo reconhecendo nelas as marcas que traduzem já uma erosão e contaminação indisfarçáveis (evolução, dirão alguns), é possível verificar a riqueza lexical e expressiva que caracteriza as falas que cruzam diariamente os espaços por onde nos movemos. Quantas vezes não nos deixamos surpreender pela musicalidade, pelos jogos de palavras, pela amplitude de recursos retóricos (veja-se o caso dos provérbios) que traduzem, no seu todo, não só uma enorme inventividade, mas também uma profundidade filosófica que a tradição e as experiências acumuladas dão solidez?
Não há muito tempo, alguém me chamava a atenção para o facto de muitos cantores nacionais ganharem outra desenvoltura musical sempre que decidem cantar na sua língua materna, a maior parte das vezes, uma língua bantu. Por outro lado, se pensarmos nas inibições de alguns parlamentares que entram mudos e saem calados em praticamente toda a legislatura, não encontraremos a explicação, entre outras razões naturalmente, numa mal-disfarçada incapacidade em expressar-se na linguagem dominante?
A outra fonte é, irremissivelmente, o livro. Espaço onde a língua se vê ao espelho e se reinventa, é através dele onde, ao longo dos séculos, os homens se preservam ao mesmo tempo que alargam infinitamente os seus horizontes. Mas é, sobretudo, o lugar onde se vêem convivendo com as múltiplas linguagens que povoam esse mesmo espaço, em que tem particular destaque a linguagem, por excelência, isto é, a língua. Esta surge-nos aí em toda a sua plenitude formal dotando-nos de ferramentas essenciais para nos edificarmos e nos comunicarmos eficaz e criativamente com o mundo.
Tenho as minhas reservas que, só por si, a língua e o livro, impresso ou digital, se imponham como soluções para contornar a degradação das palavras que é, no essencial, a prostituição da nossa condição. Acredito que no modo como nos relacionarmos com ambos, enquanto fundamento da nossa existência, e no modo como concebemos essa mesma existência, encontraremos os caminhos para, perpetuando a nossa humanidade, renascermos todos os dias.
Francisco Noa
In:http://opais.sapo.mz/index.php/opiniao/francisco-noa/129-francisco-noa/8604-a-prostituicao-das-palavras.html