Oitenta e quatro anos após o seu nascimento, na Katembe, e oito após a morte em Portugal, a poetisa Noémia de Sousa vai ser imortalizada amanhã em Maputo
Foi com o “Sangue Negro” - entregue aos promotores da “Mensagem”, em Luanda, por um intermediário ou, quando a autora por lá passou, em 1951, a caminho da Europa - que o impacto dos 43 poemas nele constantes foi retumbante e de imediato despertou a via pela qual a própria poesia poderia seguir à valorização da herança negra e à revolta contra a dominação colonial.
O impacto dos poemas propagou-se à Casa dos Estudantes do Império. Para além do caderno policopiado, de divulgação clandestina, Noémia de Sousa não publicou o livro (até que Nelson Saúte reunisse e publicasse o “Sangue Negro” em 2001). a maior parte dos poemas foi saindo em jornais, revistas e colectâneas, tais como “O Brado Africano”, “Itinerário”, “Vértice” e “Mensagem” e nas mostras antológicas de Mário de Andrade (1953 – 1969), Luís Polanah (1960), Alfredo Margarido (1962) e outros.
Com este manancial todo, a poesia de Noémia de Sousa só podia situar-se na intersecção do Neo-realismo com a Negritude. Embora a poetisa não tenha conhecido a Negritude francófona, quando escreveu os poemas (di-lo em vida), a específica situação colonial de Moçambique, mais dada à discriminação racial do que Angola, e o seu conhecimento de língua francesa e inglesa, permitiram que as mesmas fontes (Black Renaissance norte-americana, Indigenismo haitiano e Negrismo cubano), associadas à divulgação de Neo-realismo e do Modernismo em Moçambique, originassem um discurso de Negritude intuitiva.
Dedicatória a amigos
Voltemos ao Sangue Negro, o caderno é dedicado a dois amigos: João Mendes, que tem direito a uma secção própria, irmão do escritor moçambicano Orlando Mendes. Tem duas epígrafes, uma de Miguel Torga e outra de Carlos Oliveira, poeta do novo cancioneiro coimbrão. É quase imprescindível conhecer a organização do caderno, para quem pretende o ler integralmente. os seus mais divulgados e conhecidos poemas são “Nossa Voz”, “Se Me Quiseres Conhecer”, “Deixa Passar o Meu Povo”, “Magaíça”, “Negra”, “Um Dia”, “Poema para Rui de Noronha”, “Godido”, “A Billie Holliday, cantora” e “Sangue negro”.
Pires Laranjeira, Professor Doutorado em Literaturas dos Países Africanos de Língua Portuguesa, diz que convém verificar que a poesia de Noémia de Sousa, se organiza num discurso oralizado, exaltado, num plano emocional.
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